O nascer do sol era diferente. Tudo era novo e chocante ao mesmo tempo. Os arranhas-céus cortando a paisagem à beira do cais, o cheiro fétido dos canais que cortam a cidade, a imagem daquela mulher semi-nua, boca borrada após noite de luxúria. São apenas imagens, uma primeira impressão, um mundo do qual não fazia parte.
Era assim que Bento Laranjeira retratava aquela mulher à margem da sociedade, em seu quadro pintado com todo um realismo social inspirado pelo pintor françês Gustave Coubert em busca da verdade nua e crua da natureza humana. Ela coitada, não imarginava que estivesse sendo observada por um artista de rua que pintava quadros a beira do cais, e os vendia para turista que desembarcava do porto em busca de esplorar de forma mais contundente os setes pecados capitais.
Era sua musa inspiradora, seu pecado mais vil. Alimentava seus mais profundos e solitários desejos.
-Falta-me coragem... - pensava.
-Como chegar a ela, o que dizer? Qual seria sua reação diante de um senhor de meia idade, que nada mais fazia a não ser sentar-se diariamente a pintar paisagens que povoavam a sua mente.
Era chegado o fim de mais um longo dia de sonhos e devaneios.
Levantou-se calmamente, arrumou os seus pertences e caminhou tristemente em direção à casa recentemente alugada próximo ao cais.
Passando por aquelas vielas do cais, em um momento de distração, ele deixou cair umas das suas aquarelas, que por falta de sorte era o retrato da sua musa inspiradora. O vento impetuoso, como era de costume nos finais de tardes dos arrecifes, levou a sua obra para o marco zero da cidade, porém ela foi acolhida pelas mãos de Pitoco, um garoto que vadiava pelas ruas e praças da cidade, sem lenço, sem documento, sem aderentes, totalmente entregue a educação sem berço, sem amor e sem face. Pitoco pegou aquela pintura e saiu correndo gritando o nome de Laranjeira, correndo pelos paralelepípedos recém colocado pelos operários da da cidade.
Nada a fazer, não tinha mais forças. Aquela paixão o corroia diariamente, transformava sua mente num mar revolto de lembranças e sonhos.
-Preciso falar com ela - continuava a pensar. - A idade não pode ser empecilho para um novo amor.
Continuou seu caminho, solitário a pensar em sua amada. E assim que abriu a porta da sua singela casa, escutou os grito do menino Pitoco.
- Seu Laranjeira o senhor deixou cair esse retrato.
_ Obrigado! meus pensamentos estão além do meu mundo real, que não percebi a ausência desse retrato do qual iria me deixar melancólico caso não tivesse encontrado. Aceita jantar comigo, tenho sopa de peixe, doce de caju e broa de fubá.
- quero sim estou com fome, hoje só comi um pedaço de pão que seu Manuel da padaria me ofereceu, depois que eu lavei as latrinas da sua casa.
Eles entram naquela casa de poucos móveis e muitos quadros que retravam as paisagens do cais e corpos e rostos de mulheres tristes, além de barcos solitários em alto mar.
Lili era de certa forma nova no ramo. Começou suas aventuras sexuais como que por acaso, quando aos 15 anos apaixonou-se pelo seu primo Manoel Severino.
Rapaz de seus 30 anos,trabalhador, pai de família, dono da venda da esquina, na única e principal rua daquela cidade poeirenta, perdida no meio do mato.
Manoel Severino tinha uma fraqueza irremediável. Era perdido, louco, alucinado por um rabo de saia. Não podia ver um, que seus olhos brilhavam de excitação. Chegava a ficar decontrolado. Casou com Mundica por conveniência, afinal o sogro tinha certas posses.
E foi num descontrole desses, que num dia ensoralado de domingo, após a missa, Manoel Severino não mais resistiu às investidas de Lili, que desde os doze anos olhava diferente para o primo mais velho.
Marcaram encontro ao por do sol nas margens do Rio Valente. E foi lá que Lili se perdeu com Manoel Severino.
Passaram a se encontrar após a missa dos domingos, sempre às margens do Rio.
Desses encontros à margem do rio, nasceu Antonio Carlos, conhecido por Pitoco, que foi abandonado no hospital e criado em um orfanato até os sete anos pela irmã Amélia, uma freira das Camelitas Descalça, dirigente do orfanto. Com a morte da irmã Amélia, Pitoco furgiu do orfanato e passou a viver perambulando pelo cais. Lili pariu Pitoco aos 15 anos fruto daquela paixão sem pudor. Sem conseguir o apoio da família e do primo que a abandonou apos a sua gestação, foi então que ela iniciou como mulher da vida, e hoje transita pelo cais no auge dos seus 23 anos sendo inspiradora para as tintas frescas de Laranjeira e despertando desejos imarginários nos corações solitários.
Lili, era uma mulher muito graciosa,cabelos negros,olhos verdes que encantava qualquer homem independente do seu estado civil, apesar que os casados eram os seus clientes favoritos. Tinha uma estrutura mediana, seios fartos, rosados,de pele clara, suas nádegas lembravam as mulheres africanas. Talvez tenha adquirido dos seus antepassados, porque sua vó materna foi escrava da Casa Grande, e sua mãe foi fruto de uma brincadeira do senhor de engenho quando a sua sinhá estava de barriga. Seus labios também lembravam a sua etnia, quando ela colocava aquele batom vermelho comprado pelos caixeiros viajantes, que vendia as miudezas trazida do sul do país na Maria fumaça. Ela deixava os homens alucinados, desequilibrados para mancharem seus colarinhos e suas ceroulas. Coisas que não aconteciam na vida de casado daqueles mancebos boemios e folgosos.
Não era esse o mundo sonhado por Lili. Estava ali porque fora abandonada, grávida e apaixonada. Seu primo chegou a negar que tivessem um romance. Não lhe restou outra saida a não ser fugir para a cidade grande.
Chegou a viver na rua por um tempo, mas quando conseguiu seu primeiro cliente conheceu Maria de Jesus, que também o acompanhava. Ficaram amigas e passaram a alugar um quartinho no sobrado da beira do Cais. Era ali que faziam seus programas.
Maria de Jesus era uma mulher experiente na chamada vida fácil,já passara dos 30 anos,sua aparência física lembrava a grande atriz do teatro françês Sarah Bernhardt que despertou desejos em muitos homens no século 19. Contudo nada é perfeito nesse mundo, ela não possuia a orelha esquerda, que tinha sido extipada, quando ela tinha 13 anos, devido uma violência doméstica, quando seu padastro tentou violentá-la. Revoltada com a falta de atitude de sua mãe ela saiu de casa e passou a morar na pensão da Gioconda uma cafetina de 60 anos que aliciava as meninas desamparadas das familías desajustadas. Até que conheceu Lili em uma de suas aventuras na beira do cais e ambas resolveram alugar um dos quarto do Manuel o dono da padaria e cliente assíduo de Maria de Jesus. Dessa forma o aluguel era barganhado por algumas noites de prazer e desprazer. Seu Manuel era um homem asqueroso, não pela sua obesidade, mas pelo seu desleixo com seu corpo mal higienizado e maltrapilho, cheirando a "bode veio" porém com uma botija cheia de moedas de ouro.
Naquela noite elas resolveram sair um pouco mais cedo, queriam voltar mais cedo pra casa, pois no dia seguinte iriam para a procissão da padroeira da cidade. Lili nunca deixara de frequentar a Igreja, tinha devoção desde menina por Nossa Senhora.
A noite estava um pouco fria e nostálgica, mas com a chegada do Navio Francês a clientela disposta a gastar era uma certeza.
-O que a preocupa Lili, parece desanimada para um inínio de noite? - falou Maria de Jesus.
-Não sei, sinto uma tristeza profunda, como um vazio dentro do peito.
-Animação moça bonita. A noite hoje promete.
Maria de Jesus sacudiu um pouco Lili, que por gostar muito da amiga fingiu estar tudo bem.
Resolverm ir pela rua dos operários como forma de cortar caminho, quando derrepente surge aquele vulto do nada e agarra Lili pelas costas. Com o susto ela tenta correr mas uma lâmina brilante surge no ar raspando-lhe as costas. Maria de Jesus tenta agarrar o agressor que pareceia ter esquecido da presença dela. Um silência paira no ar, Maria de Jesus está atônita, quase que congelada vendo seu agressor se afastar correndo. Lili olha nos seus olhos lacrimejantes quando uma mancha de sangue escorre pelo peito de Maria de Jesus que lentamente começa a deslizar para o chão, morrendo dos braços da amiga.
Gritar, gritar desperadamente foi a última reação de Lili naquele momento de terror e tristeza.
No cimitério compareceram apenas, a amiga Lili e o coveiro conhecido por Agoro, dizia a lenda que a mulher que "deitasse" com ele terminava na sepultura. A despedida de Maria de Jesus foi triste para os olhos de Agoro motivado pelas lágrimas de Lili. Ao colocar a última pá de terra molhada no caixão, um pasarinho posou sobre um galho seco que estava misturado sobre a terra, e ali ficou por alguns segundos em silêncio até levantar vôo em busca de algo. A liberdade é a morte. Pensou Lili.
terça-feira, 10 de abril de 2007
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